sábado, 2 de setembro de 2017

setembro amarelo

trancado
no escuro do quarto
penso que o mundo enlouqueceu
na mira de um gatilho disparado

e o alvo sou eu

por inteiro fora
de dentro alvejado
achacado
achincalhado
humilhado
escorraçado
agora trancado
no escuro
do quarto

sou alvo tão fácil

preciso de algo
comer e beber
entorpecer
desenlouquecer
esquecer para
tentar me entender
vozes perto
não quero
só pioram

meu estado deserto

de dentro
sintoma de choro
desmorono
desfaleço
desacordo
desespero
por silêncio fora
de dentro 

berro de medo

por fora engordo
minguante de dentro
engulo a a seco
malogro
cansaço
meu alimento
fadado ao fracasso
me assisto

e por crasso inexisto

sozinho eu nem sei 
só penso que sou alvo
e se ninguém de fora me vê
daqui de dentro
eu não saio
eu não volto
eu não consigo
eu não prossigo
eu não me salvo

salvar-me
pra quê?

https://goo.gl/images/tSPGBC





quinta-feira, 31 de agosto de 2017

in vino veritas

um brinde à uva que morreu
para que esse vinho pudesse nascer
um brinde ao vinho que verto
em minha boca seca
intenso e preciso
e que faz dessa noite quente
sem estrelas
um caminho de luz
que me leva
irremediavelmente
até você

esse vinho que hoje bebo
te faz meu aqui presente
na sua ausência
pertinente
na minha imensa mania
de te querer saborear
escorrendo ativo rubro
encorpado e maduro
com notas de tanina textura
intensamente
em meu agre paladar

esse vinho a que me entrego
você é ele e ele é você
por isso eu brindo aos dois
enquanto só me consumo
me contento e me alimento
de desejos fluidos vertentes
de iguais tão diferentes
servidos assim de bandeja
em minha taça
em minha mente
em minha mesa
🍷

Imagem: https://br.pinterest.com/pin/552253973034975748/




quinta-feira, 24 de agosto de 2017

(...)

sempre que te escrevo
apago metade do tudo
do que quero dizer
e do inteiro que sinto
só uma parte chega até você
entre as amenidades das coisas ditas
e as tempestades de sentimentos calados
ou disfarçados
omito o que não dá pra ser dito
então entre o declarado
e o escondido
estranhos textos são nossos diálogos
narrativas sem sentido
poemas de versos quebrados
palavras inteiras jogadas ao mar
enquanto os sentimentos
naufragam num barquinho encantado
desancorado
e nossos pontos reticentes
orbitam soltos na imensidão
estrelas no céu
prisão
entre parênteses



domingo, 20 de agosto de 2017

descripturas

meu relógio não tem horas
tem eternidades
meu caminho não tem pedras
tem saudades
...