quinta-feira, 13 de julho de 2017

saudade



A saudade que não se mata
só mata de fome quando não sacia
a vontade de quem, só, se consome.
Por isso a saudade eu não mato,
por isso de saudade eu não morro,
porque cultivo, porque alimento.

A saudade é meu prato farto
de todo dia.

(porque nos teus olhos percebi estrelas...)

Vontade de mergulhar
no infinito desse teu olhar
desenhar as órbitas e constelações
do teu pensamento profundo
transformar em sensações
todos os silêncios
teu mundo
e inventar a exata palavra
que traduza essa distância
entre o meu desejo
e um abismo infinito
que sequer ouso tocar.

Vontade de ficar
uma inteira vida
contemplando as estrelas
desse teu infinito olhar
mas me contento apenas
em colher os cometas
que caem serenos no chão
quando esbarro
de relance
na tua imensidão...


A poesia desaba por dentro

Fiz uma viagem
e só encontrei escombros
de impura poesia encharcada
era tudo tão sujo de lama e lágrima
que um desastre iminente se anunciava:
nem tão cedo e nem tão tarde
essa poesia ainda desabaria
pra dentro de mim
 

sábado, 1 de julho de 2017

Somnium

Ontem sonhei com você
do sonho mesmo, nada lembro
mas acordei com tantos nós
atados na garganta e no peito
que só suspeito tê-lo reencontrado
em inexato vão e surreal momento
e decerto tê-lo visto partir
mais uma
última vez.

Só isso explica
esse aperto que não cabe aqui dentro
esse tormento tomado de assalto
no confuso momento do despertar
na agonia de quem tenta lembrar
um instante que se desfaz
na réstia de sol que alcança
o tecido esgarçado do tempo
e a aurora das horas.

E ainda que de sonhos eu nada saiba
tenho a impressão que nesse cenário
estilhaçado, abstrato, imaginário
foi tua a presença que me despertou
porque quando acordei angustiada
a saudade sob mim debruçada
essa velha conhecida
me acalentou.

E já acordada do sonho esvaído
sem saber de fato o exato motivo
me apego ao dia pra tentar esquecer
dessa noite que nada lembro
desse pressentimento
que me faz crer

que ontem
no sonho
era você...
Imagem: Wendy Scovel, Dark Art (Pinterest)


domingo, 25 de junho de 2017

Diário de bordo: coragem

Aqui eu inicio minha imensa travessia, nesse barco náufrago que vai me levar a algum lugar. Devo esquecer, para poder prosseguir, o quanto dói lembrar. Dói lembrar. Dói lembrar. Mas não quero mais permanecer, embriagada pela maresia, quero deixar esse cais decadente, porque nada mais aqui me prende, nada mais aqui me conforta, nada mais aqui me acalma, mesmo que você insista sempre em repetir que todo porto é seguro. Não, nem todo porto é seguro. Porque esse porto em que estou, ao contrário, é ele que me segura, me prende, me impede de seguir todas as vezes em que você, com sua imponente natureza de terra firme, me convida a ficar. Só que esse mesmo porto também revela minha natureza de partir, também me sopra, numa canção de vento litorâneo, que só partindo eu vou me encontrar. Além do mais, esse porto não é meu. Porque eu nem tenho porto. Ter porto, logo eu, oceânica que sou? Não. Eu sei, pode parecer estranho, você pode pensar que sou louca, ou sei lá, mas uma das coisas, das poucas que aprendi, foi que é preciso estar perdido para se descobrir. Invejo todas as pessoas que partem, todas, sem exceção, pois elas, quando voltam, são maiores. Transbordam. Não cabem mais em si. E eu, me vejo aqui, presa, ancorada, e me sinto tão pequena, nesse porto que mais tem aspecto de terrosa prisão. É por isso que preciso ir. É por isso que preciso. É por isso. Então deixe. Me deixe. Deixe que eu vá. Não me impeça. Não me amedronte nem me fale de monstros. Quero ser eu o monstro, de tão grande, de tão transbordante, quando eu me resgatar. Esse meu barco é frágil, eu sei. É tão pequeno que só cabe a mim. Ainda bem. E tem velas velhas no lugar do motor. Ele poderia até ter motor. Mas não tem. Só tem as velas, e também um leme. Não, ele não tem instrumentos nem computador, mas tenho uma bússola, uma que guardei em algum lugar, que me servirá de guia, e quando eu aprender a usá-la, porque eu vou aprender a usá-la, você verá que, se a energia me faltar, se ela me faltar, saberei, e se não souber, aprenderei a seguir. Então, não adianta me pedir pra ficar. Mas, se quiser, recomende minha alma aos deuses, mas só àqueles deuses do mar. E que venha a dor. Porque num fôlego só, respirei coragem, e agora, nesse exato momento, eu quero é me jogar, jogar meu barco nas ondas, e ir. Apenas ir. Costurarei minhas velas rotas, reaprenderei a natureza das calmarias e tempestades. Respirarei sal e ar. E lembrarei. Vai doer, sei sei.  Mas só assim eu sobreviverei. Porque acredito, piamente, que esse barco náufrago vai me levar... a algum lugar.

sábado, 17 de junho de 2017

Meu Zine (publicação de abril de 2017)

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Vou pedir um tempo ao Tempo

vou pedir um tempo ao Tempo
alegando insanidade de sentimentos.

Tempo, me dá um tempo
está difícil seguir do teu lado
me deixa sentir
me deixa chorar
até transbordar
me deixa ser
o que eu sou
sem ter que te dar
satisfações do que fui
ou certezas do que eu não sei
não me culpe pelo que fiz
não me cobre pelo que não quis

Tempo, me dá um tempo
Tempo, me deixa de lado
que a insanidade
é o meu surto
anunciado.